Projecto: Flash na Memória
Estava na aula quando surgiu a ideia para o projecto de intervenção pública. O professor estava a falar do tema geral do trabalho e de um momento para o outro disse algo do género: “Chega de conversa e passem à acção”. Foi a partir deste momento que tudo se tornou mais óbvio, a ideia por que tanto ansiava apareceu na minha cabeça.
Inicialmente fiquei muito entusiasmado, mas depois comecei a pensar na sua execução e aí sim, as coisas passaram a ser encaradas de uma maneira mais séria. Basicamente a ideia consistia no seguinte, trazer de novo o 25 de Abril para as ruas (mais especificamente para o Largo Soares dos Reis), ou melhor dizendo, criar nas pessoas uma sensação de deja vu.
O projecto implica muitas coisas e muitas pessoas, pois o que pretendo é “recrutar” alguns colegas, vesti-los de soldado (com a roupa da época), coloca-los em determinados pontos do Largo Soares dos Reis e quando der a ordem, todos eles irão a correr pelo largo em silêncio e entrarão no museu militar, porque segundo reza a história, foi lá que abandonaram um prisioneiro, e este quando foi libertado dirigiu-se à varanda e acenou a multidão. E é assim que gostaria de concluir a minha intervenção, levando alguém à varanda e esta pessoa irá gritar algumas palavras de ordem, mas relacionadas com problemáticas actuais. E no final, toda a gente desaparece da mesma maneira que apareceu.
Recursos:
Para registar o momento pedirei a alguns colegas para fotografar e filmar o acontecimento, não vai ser fácil pois serão necessárias várias pessoas para puderem captar vários ângulos.
Para além da parte técnica também tenho de falar com o Museu Militar para pedir autorização para usar a varanda do edifício e também terei de falar com teatros para arranjar as fardas do 25 de Abril.
Desenvolvimento:
Fase 1 – Convidei a minha colega Sara para filmar e ela aceitou, isto parece estar a evoluir aos poucos J
Fase2 – contactei por telemóvel uma senhora da Academia Contemporânea do Espectáculo e também lhe enviei um email a contar o que pretendo fazer, na esperança de arranjar as fardas. Agora é só aguardar uma resposta…
Resposta: pelos vistos só têm um fato, e mesmo assim não pretendem empresta-lo, bem, terei de tentar noutro lado, fiquei a saber que no Teatro S. João na Batalha houve uma peça onde foram necessárias várias fardas, terei de os contactar para ver se desta vez tenho sorte…
Fase3 – falei com a Rita, aquela rapariga simpática que anda sempre de máquina fotográfica na mão e pedi-lhe que fotografasse a minha intervenção e ela aceitou de imediato e com ela também irá uma colega.
Fase 4 – bem, agora é altura de falar com a direcção do Museu Militar, não posso adiar mais, até porque estou muito dependente deles…
Depois de falar com o Director do Museu Militar:
Não posso negar, estou um pouco preocupado com a concretização da intervenção, esta manhã fui ao Museu Militar e mandaram-me esperar pelo Major na cafetaria, tomei um café, desenhei, conversei com alguns soldados e nada…cerca de uma hora mais tarde aparece o Director, dirige-se à minha mesa e eu contei-lhe tudo o que pretendo fazer, a cara dele não foi nada animadora mas pelo menos ficou com o meu contacto, disse-me que iria ligar para Lisboa para comunicar as minhas intenções aos seus superiores, sinceramente não percebo porque é que estão a complicar as coisas, só usaria a varanda por menos de um minuto, além disso esta intervenção só iria enaltecer a atitude dos soldados…agora resta-me aguardar que me contactem…
Quase uma semana depois:
Esta espera está a tornar-se aborrecida, amanhã dirigir-me-ei novamente ao Museu com a intenção de os pressionar, se eles acham que vou desistir estão muito enganados…
Dia seguinte:
Bem, não correu como eu estava à espera, ou melhor, de certa forma já estava à espera, só estava com esperanças que acontecesse o contrário. Eles negaram a utilização da varanda, assim não terei credibilidade se for pedir os fatos, o meu projecto está arruinado. O director nem sequer ligou para Lisboa para pedir autorização, olhou para mim e disse que não dava, que este projecto iria gerar uma enorme confusão, ainda tentei insistir mas ele estava irredutível. Fiquei mesmo muito chateado.
À saída sentei-me no passeio a olhar para o largo e voltei a reparar que é um sítio demasiado sossegado, e que houve uma grande agitação na altura em que eu e os meus colegas andamos a “bisbilhotar” lá no largo, foi então que uma ideia mais simples surgiu, porque não marcar a presença dos alunos de Belas Artes com uma intervenção? Andávamos todos a praticamente à volta do mesmo assunto, porque não marcar um dos poucos momentos em que aquele largo está agitado?
Por isso pensei em construir cerca de três bonecos em cartão envergando material utilizado pelos alunos na altura da pesquisa, no entanto, estes bonecos irão estar vestidos com as roupas dos soldados do 25 de Abril, como forma de continuar ligado ao projecto anterior e para demonstrar que os soldados podem fazer o nosso trabalho e nós o deles.
Alguns dias depois:
Já construí dois soldados, e estão a sair melhor do que estava à espera, inicialmente tinha pensado em fazer uma coisa simples, sem muitos pormenores, mas entusiasmei-me a acabei por fazer uns autênticos guerreiros de Belas Artes. Deu algum trabalho a pinta-los, mas compensou o esforço, o problema e que deitei-me muito tarde e estou um pouco cansado, terei de deixar o último soldado para outro dia.
Ah, aproveito para dizer que até agora tenho um soldado com um bloco de desenho e outro com uma máquina fotográfica.
3 de Junho de 2009
São 21h30 e estou neste momento a dar os últimos retoques no último soldado, este tem uma máquina de filmar na mão.
Amanhã vai ser o grande dia, parece que o tempo está muito estranho, espero que corra tudo bem e espero não ter problemas com chuva. Estou mesmo nervoso, os bonecos estão mesmo engraçados.
Para o caso de não ter dito antes, são apenas três soldados como forma de representar os pequenos grupos que estiveram envolvidos no estudo do largo. Penso que é algo fácil de perceber, só espero que amanhã o meu exército seja bem recebido.
4 de Junho de 2009
Hoje o dia foi em grande, pode-se dizer que correu melhor do que estava à espera, quando lá cheguei o largo estava um pouco vazio, mas foi engraçado ver os carros a passarem com os condutores a olharem muito espantados.
Coloquei os bonecos em vários locais do largo e penso que aqueles soldados fazem um enorme sucesso com as senhoras. Digamos que têm um charme natural.
Foi interessante ver como as pessoas interagiam com os bonecos, tal como aconteceu quando fomos para lá trabalhar (alunos de Belas Artes), tanto as floristas, o homem do quiosque como as pessoas que por lá passaram trataram-nos sempre bem, e estes bonecos não podiam ter melhor recepção!
Até pareciam reais pela forma como as pessoas lidavam com eles, pareciam seus filhos ou seus netos.
Estou muito contente com o resultado desta intervenção, cheguei a ter algumas dúvidas devido à simplicidade do projecto, mas depois de ver aquelas caras, os sorrisos, os piropos fiquei mesmo muito feliz.
O único inconveniente foi o vento, mas aqueles soldados estavam bem treinados e conseguiram superar todos os obstáculos sem se queixarem. Neste momento estão a festejar o seu sucesso, mas daqui a pouco já devem ir dormir, até porque deve exigir um enorme esforço físico segurar um bloco, uma máquina fotográfica ou uma câmara o dia todo.

eu preparando o soldado

soldados verificam o equipamento

soldados e senhora simpatica (1)

soldados e senhora simpática (2)

soldados e florista (1)

soldados e floristas (2)
Aqui vai um pequeno poema que escrevi ao longo do meu trabalho de pesquisa, penso que reflecte todas as experiências que vivi naquele local:
Largo Soares dos Reis
O som ensurdecedor dos automóveis
Abafa o silêncio que se quer impor
Mesmo na morte ainda se encontram
Disputas de ódio e amor;
As almas que fazem do largo
Sua casa, seu lar
Recolhem-se numa antiga gasolineira
Que está por habitar;
Um pouco ao lado está o senhor do quiosque
Que as suas histórias deu a conhecer,
Falando do 25 de Abril
E no que é difícil esquecer;
A florista muito simpática
Até com uma flor nos queria congratular
Exibindo um olhar doce
Que os seus muitos anos
Não quiseram apagar

soldados e os carros